quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Reconsideração da sentença - outro

Natal, época de festas em família, época de fazer um balanço geral da vida. E para quem está na expectativa, no meu caso de ser habilitada a ser mãe, como é essa época do ano ? Posso dizer por mim, é uma época muito triste. Solicitei a reconsideração da sentença, já liguei no Forum para saber se havia uma decisão do juiz (juiz decide, assistentes sociais e psicólogos dão parecer, segundo minha irmã, que é advogada), e fui informada que há um decisão. Faltou coragem para ir até lá ver qual seria, confesso fiquei com muito medo de ser recusada novamente, sem nem ser chamada para conversar. Ou, tão ruim quanto, pedir para aguardar mais um tempo. Época de festas, não quis arriscar receber uma notícia triste. E se, hipótese que eu mais espero, o juiz tiver decidido a meu favor, solicitando nova avaliação, suponho que, como da outra vez, a psicóloga vai entrar em contato, independente de eu ter ido lá ver a decisão (perguntei isso ao telefone e me disseram que é isso mesmo). Porém, fico aguardando um telefonema que não vem, e fico triste, sem saber o que esperar.

Nesse meio tempo, todas as crianças que vejo na rua, em especial as abandonadas ou exploradas, fico imaginando que poderiam ser meu filho. Que ele está em algum lugar só esperando por mim. Chorei muito neste natal, acho que foi um dos natais mais tristes da minha vida. Claro que não só por esse motivo. Minha mãe tem Alzheimer, já teve câncer (que pode voltar), e piora a cada dia. Penso que ela talvez nunca venha a conhecer esse neto. Fico triste com isso.

Penso no tempo que ainda vou ter que esperar depois de ser aceita como mãe e tento não me desesperar.

Ganhei um presente muito valioso neste Natal, um livro que fala sobre um relato de adoção. Devorei numa noite. Adoro ler as histórias dos outros, mas às vezes fico deprimida porque cada vez que leio outras histórias percebo que o motivo para que eu esteja ainda fora da “fila” é fútil. Neste caso que eu estava lendo, o casal queria como primeiro filho, um filho adotivo, achei lindo isso. Eles aceitavam irmãos e eram bem flexíveis com relação à cor e idade. Mesmo assim eles tiveram bastante trabalho. E olha que foram habilitados logo de cara. Imagina eu, que nem habilitada estou, fiquei sem namorado por conta disso, e ainda devo esperar algum tempo na fila.

É mesmo complicado querer adotar uma criança sozinha, outro dia até uma amiga minha falou que acha que para criar uma criança necessitamos do pai. Não esperava isso dela, mas confesso que concordo. Porém, a questão na verdade não é essa. A questão é: porque uma mulher (ou homem) que está sozinha, por circunstâncias das mais diversas, não pode mesmo assim ter um filho (adotivo ou não) ? Sem dúvida para uma pessoa sozinha será mais trabalhoso, porque não vai ter com quem dividir a responsabilidade. Mas essa pessoa já arca com as responsabilidades da vida sozinha. Hoje eu já sou responsável pela minha mãe, ela depende de mim. Se eu sou capaz de cuidar da minha mãe, porque não seria de uma criança ? E porque um namorado pode impactar nesse processo, já que nem divide despesas da casa e muito menos responsabilidades da vida ?

Ouvi de uma pessoa que o abandono de idosos é muito maior que o de crianças. Estou pesquisando melhor esta informação. Mas se eu cuido bem de minha mãe e jamais a abandonei, porque não me permitir a imensa graça de ser mãe ? Afinal já tenho um histórico de sucesso em adoção, adotei um idoso e um cachorro, coisas que poderia não ter feito, se não estivesse realmente disposta e com coragem.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Reconsideração da Sentença

Abaixo o meu embasamento para solicitar ao juiz que reconsidere minha habilitação: "Solicito reavaliação da sentença do meu processo de habilitação à adoção, pelo motivo de atualmente haver uma melhor definição de minha vida social. O relacionamento que mantinha com meu namorado (citado no processo) não evoluiu e terminou há cerca de 6 meses, não gerando dúvidas de que não havia um objetivo de vida comum. Portanto, não há dúvidas de minha parte com relação à adoção monoparental." Será que ele vai meu permitir ser mãe desta vez ?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O que é felicidade ?

Ontem, ao entardecer, olhando o por do sol enquanto aguardava um taxi para voltar para o prédio onde trabalho, vendo os carros passarem, lembrei dele. Lembrei de todos os por do sol que passamos juntos, passeando ou não. Despreocupados com a vida e onde ela ia nos levar, simplesmente curtindo. Nessas horas é quando vem a dúvida, fiz certo em terminar com ele ?

Afinal éramos felizes juntos, disso tenho certeza. Bater um bom papo, dividir opiniões, discordar, concordar, ter um pensamento comum no mesmo momento, simplesmente adivinhar o que o outro estaria pensando. Tanta coisa em comum não foi suficiente para nos manter juntos, porque ?

Tem fases na vida em que a nossa percepção do que realmente é importante muda um pouco, por um motivo ou outro. Proximidade da velhice, pensamos: “Minha vida se resumirá a isso ?” Sentimos que temos que ter um sentido maior nela, que o que tivemos até então não nos é suficiente. Temos que escolher, na verdade arriscar, por um objetivo maior, que para nós significa a felicidade. Nessa escolha, influencia muito nossas experiências com certeza, se já arriscamos prá um lado e deu ou não certo. Se é uma experiência de vida pela qual não abrimos mão. Tudo isso influencia.

Outro dia uma amiga minha disse que, o que temos de mais valioso nesta vida é o tempo e que não vale a pena ficar desperdiçando-o com coisas que não vão nos levar a lugar algum. É verdade, quando sabemos onde queremos chegar, isso é mais simples de visualizar e fica mais fácil tomar decisões.

É, mas é difícil mesmo assim, largar a felicidade de um por do sol sem nenhuma pretensão, por um objetivo maior na vida, que não sabemos nem quando, nem se vamos atingir. A única coisa que conseguia pensar vendo aquele por do sol era na falta que ele estava me fazendo, na tristeza em tê-lo magoado e o quanto eu queria vê-lo chegando.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sentença Habilitação - pareceres

Por mais incrível que possa parecer, levei todo esse tempo, desde que fui recusada na habilitação do processo de adoção, para ter coragem de ler por completo a sentença. O parecer da Assistente Social está muito bem escrito e bem detalhado, enquanto o da psicóloga me pareceu muito sucinto, simplificando demais uma situação que não é tão simples assim. Então tive a idéia de transcrever pelo menos as partes que achei relevantes dos pareceres e quem quiser que faça seu próprio julgamento.

Parecer favorável da Assistente Social:

“... Trata-se de pessoa que alcançou através da edificação de uma carreira profissional, a estabilidade financeira e o patrimônio que possui, condições mínimas para viabilizar o seu projeto de ser mãe, sonho que tentou realizar quando ainda casada e agora o busca sozinha, uma vez que está separada há dois anos. Conta com o apoio da família e suporte à distância da mesma, sendo que a rede de suporte mais próxima se dará através das amigas.

... a requerente parece-nos uma pessoa muito comprometida com seus objetivos, de boa educação, responsável, ponderada, com habilidades para construir vínculos e com muita vontade de ser mãe.

Durante o processo de busca de meios para gestar o filho biológico, a requerente já vislumbrou a possibilidade de vir a adotar uma criança, entretanto, seu ex-marido não compartilhava deste projeto, culminando no fim da união, entre outros motivos.

Após, com apoio psicoterapêutico e em processo de amadurecimento de sua motivação, a requerente decidiu levar em frente seu projeto adotivo através de sua solicitação de inscrição no cadastro deste Juízo. Avaliamos que a busca por apoio psicoterapêutico neste momento foi uma atitude muito saudável e responsável por parte da requerente... “

Solicitei uns meses antes do parecer final da psicóloga para refletir um pouco mais (sugestão da própria psicóloga) então ela resume a situação assim: “A requerente se mostra uma pessoa esclarecida, dinâmica, franca e de fácil comunicação... denota ter um potencial afetivo para a maternagem. Neste momento possui questões ainda não bem resolvidas e elaboradas, no que diz respeito a adotar um filho sozinha. Ela se dispõe a concluir a presente avaliação em 120 dias...”

Parecer desfavorável da Psicóloga:

“... uma criança, especialmente que sofreu abandonos, necessita de uma condição de vida segura e de aceitação das pessoas que a cercam, e a requerente parece ter compreendido e concordado, até certo ponto, pois insistiu de que não se pode controlar os acontecimentos, e que estes podem mudar a qualquer momento.

... apresenta aspectos de imaturidade emocional. Sua postura é avaliada como ambígua pois, ao mesmo tempo em que há um movimento de sua parte em direção a concretizar uma adoção, seu discurso é contraditório e sinaliza que, nas condições apresentadas, uma criança que viesse a adotar estaria sendo exposta a uma dinâmica de vida e emocional com inseguranças, que poderão refletir negativamente no desenvolvimento psíquico de um infante...”

Como rebater um discurso desse ? Existe alguma certeza nesta vida ? Temos controle de todas as situações ? Quem garante que um casal aparentemente ajustado, não vai sofrer uma separação num curto prazo ? Minha separação foi de uma hora para outra (jamais imaginei que fosse me separar) e finalizou em menos de 6 meses.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Alegria da Adoção

Ontem uma pessoa, conversando comigo e contando que leu meu blog, me disse que eu escrevo de uma forma triste a respeito do assunto, que eu deveria contar coisas boas a esse respeito. Aí fiquei refletindo sobre isso. Na hora que me falaram até justifiquei dizendo que a doçura, a alegria da adoção está depois que temos a criança, não antes disso.

Mas me pus a pensar a esse respeito para checar se seria verdade. Tentar dizer coisas boas sobre a adoção, uma visão mais alegre. É mesmo difícil pensar nisso quando estamos na fila de espera pela criança, pois nossa felicidade está toda direcionada para aquela criança que vai chegar. Por mais que digam que não devemos colocar expectativas em cima da criança, que devemos aguardar pacientemente, sempre visualizamos essa criança e nossa felicidade está nisso. Sonhamos com a criança enquanto esperamos que ela se materialize. Nossa alegria está nos encontros com outras pessoas na mesma situação, está em ouvirmos histórias de superação, de sucesso. Trocamos idéia e com isso nos mantemos vivos, mas é verdade que a alegria nessa espera está no objetivo.

A adoção não deve ser considerada um ato de nobreza, um ato de caridade, mas sim de uma pessoa que quer um filho, não importa sua origem. Essa mesma pessoa me disse que há nobreza sim na adoção, porque nem todas pessoas estão preparadas para isso, ou nem todas teriam a coragem que temos em tentar. Não sei se isso é verdade, simplesmente acho que algumas pessoas realmente não querem, não pela adoção em si, mas porque não querem filhos, não importa como. Acredito que as pessoas que optam pela adoção, seja lá por qual motivo, escolheram ter um filho de verdade. Os filhos biológicos nem sempre são tão desejados quanto os adotivos. Acredito que algumas pessoas desistem de tentar ter filhos biológicos e dizem que não querem adotar, mas é porque elas não querem um filho de verdade. Elas só querem satisfazer uma necessidade do organismo.

Na adoção passamos por uma gravidez é verdade, mas ela é demorada e sem visualizarmos a criança, nem através do borrão de um ultrassom. E quando ela chega é de sopetão e temos que estar preparados, amá-la da mesma forma. Não vejo muitas alegrias no caminho de quem está na fila, aguardando, vejo alegria apenas no objetivo, na visualização do nosso futuro. Imaginar que seremos pais algum dia é uma alegria, imaginar que uma criança vai nos chamar de pai ou mãe também. A verdadeira felicidade está nisso, na visão do futuro.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ter ou não ter, eis a questão

Esta semana me fizeram uma pergunta interessante, que me fez refletir sobre várias coisas. A pergunta foi “Você se arrepende de não ter tido filhos durante o seu casamento ?” Uma pergunta tão simples, mas com uma resposta tão complicada. Respondi: “Sim e não.” Porque ? Essa resposta foi fácil. Sim, porque eu realmente já quis ter um filho e, não, porque acho que era com a pessoa errada. Pessoa errada, essa ficou martelando na minha cabeça. Quem seria a pessoa certa ? Tantos casamentos fracassam depois dos filhos e os casais ficam anos brigando. Mas não acho que ele era a pessoa errada porque isso aconteceria conosco. Com ou sem filhos nos separaríamos da forma que foi. Do contrário do que sempre pensei, nos separamos sem brigar. E não acho que brigaríamos mais se tivéssemos filhos. Bem, mas após isso veio a reflexão sobre filhos, inevitável. E ouvindo a pergunta, de uma pessoa anos mais nova que eu. Que está numa fase em que é pressionada para ter filhos e não quer ainda, me lembrou de mim mesma nessa idade. Eu era assim, não queria ter filhos antes de ter aproveitado bem a vida. Porque, apesar de toda a beleza da maternidade, filhos demandam muito de nós. E comigo foi assim, fui feliz assim, mas eu diferente dela nunca sofri muita pressão. Tive um marido que compartilhava essa idéia. Viajamos muito, aproveitamos muito. Arrependimento ? Não, não há. Apesar de tudo, ao final, sempre fomos parceiros em nossos ideais. O casamento simplesmente se desgastou. E, como eu visualizava desde o início, não me imaginava casada com meu ex-marido aos 40 anos, não sei bem explicar o porquê, simplesmente pressentia isso. Porque temos esse sexto sentido ? Sentimos isso, pressentimos e normalmente temos razão. Após o final do casamento, me vi perdida, sozinha e sem filhos. O que fazer então ? Superar e seguir em frente. Então, após o apoio dos amigos, me vi de novo namorando. Uma pessoa fantástica, de ótimo caráter, enfim, que é inteligente e com coisas em comum comigo. Mas tem um problema, mora com os pais. Eu torci o nariz para isso desde o início. Olha o pressentimento aí de novo. Mas eu dizia a mim mesma, é só porque ele ainda não encontrou um motivo para mudar. Então, não tardou muito a aparecer o motivo da minha desconfiança, ou pressentimento. Eu amadureci com a separação e continuava amadurecendo e ele ficou para trás logo. Eu logo entrei na questão filhos, questão comum a quem namora “firme”. Se não é, deveria ser, pois isso é realmente uma questão importante e que pode arruinar uma relação. Ele não consegue se libertar, viver a própria vida, ser “dono do próprio nariz”, deixar de ser coadjuvante para ser principal, deixar de ser filho para ser pai. Então volta a questão filhos, se não temos ou encontramos um parceiro que nos apóie, qual rumo devemos tomar ? Arrependimento por tudo que vivi não há. Há apenas decisões que precisamos tomar em determinadas fases da vida.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Menina do Pezinho Torto

Outro dia eu estava no shopping e vi uma cena interessante, que me lembrou uma história que me contaram no fórum quando fui fazer minha inscrição para a habilitação. Vi uma família, a mãe e dois filhos pequenos, por volta de cinco anos. As crianças, como toda criança, brincavam correndo na frente da mãe. A menina me chamou atenção por ter o tipo físico daquela que imagino como minha filha. Moreninha de olhos de jabuticaba. Então, chamei minha amiga e mostrei para ela. Ela reparou que a menina tinha o pé torto e tinha uma certa dificuldade para andar. Eu tinha achado que ela estava só brincando com o irmão, por isso estava andando daquele jeito, mas realmente era um “defeito de fabricação”. Continuei observando e vi que aquilo não era um problema sério para ela, ela mesmo assim brincava feliz da vida com o irmão. Então lembrei que a assistente social no fórum me perguntou se eu aceitaria criança com deficiência física. Ao que eu, como a maioria das pessoas, respondi que não daria conta de uma criança assim. Aí ela me explicou que existem casos de crianças com pequenos problemas como a falta de um dedo. E que, por acharem injusto com a criança eles a indicam mesmo assim para o próximo da fila, alertando para o fato. E assim a criança acaba sendo aceita. Achei correto isso e concordei. Mas vendo a menina me lembrei que muita gente recusaria essa criança. Ou que pode ter outros fóruns, onde as assistentes não tenham essa “presença de espírito”. Este texto dedicado a todas as crianças consideradas deficientes físicas por conta de pequenos defeitos, que às vezes a gente nem percebe.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Adoção por Amor ou por Proteção?

Hoje escutei uma história impressionante e que me comoveu. Depois refletindo sobre ela achei que valia a pena escrevê-la e que é uma experiência única escutar essas histórias. Uma pessoa estava contando a história de seu sobrinho, que tem paralisia cerebral, pelo que entendi. Depende de uma pessoa para tudo, tomar banho, comer, itens mais básicos e fáceis de imaginar. Mas dependente inclusive para mastigar. Como a própria tia afirmou, ele entrou para a lista de casos de sucesso, porque com toda a deficiência que possui, chegou agora aos trinta anos. E é muito amado pela família. Ainda ouvindo a história me surpreendi ainda mais, essa criança foi adotada ainda bebê. Aí vem aquela surpresa geral, porque claro, em todas palestras que frequentei no grupo de apoio, só conheci um caso similar. Porém, o caso que conheci era de uma pessoa que já cuidava da criança (que tinha por volta de 10 anos) e passou por um processo de um ano para adotá-la. Nunca tinha escutado o caso de alguém que adote um bebê com paralisia cerebral. Pois esse casal adotou e conscientemente. Então, com várias caras espantadas encarando-a, ela contou a história da criança. Ocorre que o irmão dela teve tuberculose e ficou estéril por conta disso. Na época já existia inseminação artificial, mas eles não quiseram optar por esse caminho (nem todo mundo acha este um processo natural (a começar pelo nome)). Nem pensaram duas vezes, vamos adotar uma criança. Na época (década de 80), quando um casal queria um bebê, simplesmente dizia isso a um médico ou enfermeira conhecidos e pedia que avisassem quando surgisse um bebê abandonado. E feito isso, o bebê apareceu, abandonado por uma mãe que não o desejava, tanto que tentou abortá-lo por diversas vezes, causando-lhe os danos. O médico alertou para os problemas que, certamente a criança teria. Mesmo assim eles decidiram que aquele era o filho deles, e que seria deles independente de qualquer coisa. Após escutar a história e refletir um pouco sobre o assunto, fico pensando, será que quando adotamos uma criança maior, mais crescida, também não o estamos fazendo por proteção? Por imaginar que dessa criança pelo menos temos algum histórico? Este também não poderia ser classificado como um ato preconceituoso? Pois afinal de contas com uma criança maior, temos um período maior de adaptação, portanto, temos tempo de conhecê-la e de conhecer seu histórico de saúde também. Uma adoção tardia seria uma forma de nos proteger do medo do desconhecido ?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Aborto Psicológico

Parei de escrever, parece que perdi o fio da meada. Na verdade estava em um luto, após meu aborto psicológico. Afinal se quando estamos na lista de espera pela nossa criança nos dizemos “grávidos”, então quando não conseguimos entrar na lista sofremos um “aborto”. Tenho curiosidade de saber das pessoas que sofreram a mesma angústia que eu, aquelas que tiveram suas habilitações rejeitadas. Quem são essas pessoas ?

Bem, eu estou tentando superar minha perda, não tem sido fácil. Me deu aquele “pânico” de não conseguir essa criança tão desejada. E como já não sou mais nenhuma mocinha, apesar de ainda ser jovem, tomei uma atitude meio impensada e com certeza meio na base do desespero. Muitas pessoas talvez não entendam isso, critiquem, mas a verdade é que só quem realmente está passando por isso é que é capaz de entender. Quando nós mulheres sem filhos chegamos aos 40 anos(às vezes até antes) nos deparamos com a realidade, teremos filhos ? Aí corremos para o médico, feito loucas desesperadas, como se ele tivesse a resposta ou a solução para isso. Eles até tem algumas opções, mas a verdade é que o problema é nosso. Aceitamos as opções oferecidas ? Nesse desespero temos que tomar decisões. Decisões extremamente importantes e que vão definir nosso futuro.

Cada pessoa tem sua crença, seu modo de pensar, e isso difere de um para outro. No meu modo de pensar, se não tenho mais óvulos para gerar uma criança, ela não será “biologicamente” minha, não terá meu DNA digamos. Então, para mim, não há necessidade de uma gravidez “biológica”, a “psicológica” (a da adoção) para mim faz mais sentido nesse caso. Mas, e como tudo tem um mas, como disse acima, deu “pintou” o desespero. Desespero de não conseguir a criança adotiva e nem a biológica. Resolvi fazer um tratamento (uma das opções existentes) para gerar óvulos para congelar e utilizar no futuro. Nesse caso eles teriam meu DNA. Meu parceiro não sabe o que quer da vida, então não tenho como dar continuidade ao tratamento (chegar a tentar a gravidez) e o que penso sobre óvulos doados vale também para o sêmen. Porque fazer isto então ? Pois é, como eu dizia, puro desespero. Desespero de não conseguir ser habilitada para ser mãe, nem no contexto biológico, nem no psicológico.

Encarei o tratamento, embora no passado já tenha passado por isso (quando era casada e tinha um parceiro) e jurado que não mais tentaria. É verdade que meu parceiro atual tinha acenado com a hipótese futura de tentar ter um filho biológico comigo. Então encarei e agora estou sofrendo as conseqüências. Essas ninguém fala muito, sei que todas que passaram por isso sabem o que estou falando. É uma situação ingrata e extremamente desfavorável que pode “detonar” com casamentos, além de “detonar” fisicamente também. Fazer isto com a minha idade (tenho 42 anos) significa tomar o dobro da quantidade de hormônio que tomei quando era mais nova (tinha 38 anos na época). Os efeitos colaterais são fáceis de entender, é uma TPM violenta que dura uns 15 dias (pode durar mais se for uma tentativa completa). Há medo a cada ultrasom, será que terei óvulos ? Um só é suficiente ? Tudo isso por apenas um óvulo ? Vale a pena ? (essa questão eu enfrento todo dia).

Encarei os desafios que a vida me propôs, mas aquela criança moreninha, de olhos escuros me fitando, não desaparecem na minha mente. Aquela que seria minha filha. Choro toda vez que vejo um filme onde as pessoas adotam uma criança. Para mim não existe amor maior que o de mãe para filho (biológico ou não).

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Habilitação para ser mãe

Existe isso na vida ? Existe alguém neste mundo que possa julgar se podemos ou não ser mãe ?

Hoje eu descobri que existe. Fui verificar a sentença do juiz no fórum, sobre meu processo e depois de tantas entrevistas, de tantas idas e vindas ao fórum, de tanto lutar, a sentença (essa coisa de nome tão pesado e radical) “momentaneamente não estou apta”. Dizer o que a respeito disso ?

Pode mesmo existir alguém que nos julgue dessa forma ? Claro que sim, depois do caso da procuradora da justiça, que foi habilitada no processo, só Deus sabe de que forma. Lógico que os profissionais do fórum tem que ser criteriosos. Sim, é fato, eles estão pensando nas crianças, na estrutura que poderemos oferecer a elas. Mas de verdade neste ano e meio que estudo o assunto, que freqüento grupos de apoio, nunca conheci uma pessoa que tivesse sido recusada, no entanto eu fui.

Sei porque me recusaram, a psicóloga foi bem clara a esse respeito na última entrevista, queria que eu terminasse um namoro de um ano, porque meu namorado, que nunca chegou a morar comigo, não pretendia adotar em conjunto (embora meu processo tenha se iniciado antes do namoro e sempre ter sido prioridade). Podemos ser prejudicadas por esse motivo ? Perguntei no início do processo se gostariam de conversar com ele, nunca houve interesse. Sempre fui muito sincera e falei a verdade, mas será que deveria ter omitido ? Em vez de dizer que ele ficava na minha casa alguns dias da semana, dizer que nunca ele ficava ou omitir que tinha um namorado ? Seria simples mentir assim, mas fui sincera, fui eu mesma e paguei o preço.

Casais ainda tem prioridade, pois nós mulheres sozinhas podemos ter namorados e os casais nunca traem, nunca se separam... Mas aí vai um questionamento que fiz para a psicóloga, o tempo que leva para a criança chegar, e já percebi que ele é longo mesmo para quem escolhe crianças maiores (pelo menos um ano), muita coisa acontece na vida da pessoa, como garantir que a situação daquela pessoa não mudou ? Tudo bem eles devem fazer uma nova avaliação, mas duvido que ela seja tão completa quanto a primeira, onde fui barrada.

Estou triste, muito triste. Porque tenho que pagar esse preço de não ser mãe por ter escolhido homens errados. Homens que mal fazem ou fizeram parte da minha vida realmente. Um namorado que nunca deixou mais do que uma camisa na minha casa, um marido que condenava a adoção (capaz dele sim aparecer no fórum atrás de uma criança e ser aceito). A solução seria uma produção independente ? Sempre achei esse ato fútil com tantas crianças abandonadas, mas não seria essa uma solução ?

Vi minha filha, moreninha como a imaginei nos meus sonhos. Eu que tanto fui indiferente no quesito raça, que considerei adotar uma criança mais velha, vou ter que optar por uma criança branca, sem pai, como seria a adotiva. Não estarei acrescentando muito à sociedade, sei que adoção não é caridade, mas há um benefício social nisso. Sempre sonhei com essa criança e vou lutar por ela, sendo pela via da adoção ou não, filho é sempre filho, não importa de onde ele veio.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Adoção e os Amigos

Depois de muito pensar no assunto, decidir, investigar, ir atrás, decidimos que é hora de ir à luta. E então queremos compartilhar essa decisão, dividir esses momentos com nossos amigos. Aí vem a dúvida, como fazê-lo ? Bem, é claro que cada um acha a sua própria receita. Mas sempre fica a dúvida, prá quem devo e prá quem não devo contar ? Eu sempre fui uma pessoa extremamente discreta no trabalho, nunca comentei muita coisa sobre minha vida particular. Mesmo assim acabei contando a história da adoção para minha gestora. A reação foi de surpresa (pelo meu histórico e pelo meu jeito não achava que eu queria filhos). Depois me arrependi de ter contado, não que tenha me prejudicado, mas também não acrescentou nada. E vale lembrar que a maioria das pessoas não tem a menor ideia de como seja o processo. Muitos ainda hoje, vinculam o fato a caridade. Também podem achar que o funcionário está em iminência de ficar afastado por conta de licença maternidade e retaliar, mesmo que não seja exatamente intencional. Vale lembrar aí que, adoção não é caridade e que o processo é demorado. Leva em média um ano entre o envio de documentos, as entrevistas e a sentença do juiz. É um processo sério e criterioso, para que só realmente adote uma criança quem tem condições (psicológicas, além de financeiras). Além disso, tem o tempo de espera na fila, que varia conforme o perfil da criança. Claro que, antes de contar para minha gestora, contei para meus amigos mais próximos, que, por me conhecerem melhor não tiveram a reação de surpresa, e ficaram muito felizes. Torcem para que a criança venha logo para brincar com seus filhos. Isso certamente foi uma reação que superou minhas expectativas. No meu perfil de criança incluí a multiracial e tenho receio do preconceito. Portanto, aí vai a dica, conte, mas conte para quem realmente merece saber.

sábado, 26 de junho de 2010

Adoção e Alzheimer

Quando comecei a pensar em adoção, entre outras reflexões que fiz, uma delas foi com relação à minha mãe, que é portadora de Alzheimer. Ela tem muitas dificuldades de memória, inclusive com relação à mim, que às vezes pensa não ser sua filha. Nesse contexto, pensei como essa criança seria vista por ela. Pensei mais além e como a minha ideia era adotar, independente de cor, qual seria sua reação ? Como ela trataria esta criança ? Atualmente não moramos juntas, porém, eu cuido dela e ela mora no mesmo prédio que eu. Isso significa que, caso eu adotasse uma criança, essa criança inevitavelmente conviveria bastante tempo com minha mãe. Como minha mãe veria essa criança ? Imagine se ela fosse de cor ? Ela pensaria que é filha da empregada ? Todos esses pensamentos me passaram pela cabeça, por mais absurdos que possam parecer nos dias de hoje. Realmente quem não conhece um pouco sobre a doença, talvez não entenda o que eu estou querendo dizer. Minha mãe tem 81 anos e embora nunca tenha demonstrado um preconceito muito profundo, sei que ela, como a maior parte das pessoas da sua geração, o tem. Ela era do tipo que dizia "fulano tem o pé na cozinha", ou até mesmo dizia que não era bom se relacionar com pessoas de raça diferente porque eles poderiam gerar crianças não muito saudáveis. Esse pensamento pode ser bastante antigo e ultrapassado e certamente hoje ela não fala mais estas coisas. Porém, para quem conhece essa doença, sabe que a memória da pessoa vai regredindo e que as lembranças mais antigas é que vão se tornando mais presentes. Isso poderia trazer aquele velho preconceito de volta e sem querer ela questionar quem seria a mãe da criança, nunca assimilando aquela criança como sua neta. Hoje ela tem duas netas, e em geral ela lembra das duas, embora não com muita facilidade. Mas será que uma neta "diferente", embora com uma convivência maior, teria seu carinho ?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Casamento sem Filhos na Década de 60

Tive uma tia, minha madrinha, a qual eu era muito ligada, era minha segunda mãe. Cuidou de mim quando bebê e sempre esteve presente em todos os meus momentos. Até os mais rebeldes, quando briguei com minha mãe e fugi para sua casa. Ela havia sido casada, mas se desquitou (na época não havia divórcio) quando eu era bem pequena. Mas não pequena demais para não me lembrar de meu tio. Lembro dele, lembro da época em que eles "negociavam" a separação. Ele era meu padrinho e eu gostava muito dele, ele fazia muitas das nossas vontades (minhas e as de minha irmã mais nova). Nunca entendi porque eles não haviam tido filhos, eu queria primos e pedia por isso. Criança é assim mesmo, quer sempre mais do que tem. Minha mãe dizia que meu tio era quem não podia ter filhos. Teve caxumba na infância. Engraçado como para ela, naquela época era importante frisar que o problema não era de minha tia. Minha tia dizia que ia adotar uma criança, me lembro disso. Mas ela se separou e na época mulher só criava filho sozinha se tivesse sido abandonada pelo companheiro. Eu era criança e não entendia essas limitações culturais, queria um priminho. Achava minha tia triste por não ter filhos. Acredito que a lei da adoção, na época, também não favorecesse situações deste tipo. E cresci com essa imagem da minha tia, mulher bem sucedida profissionalmente, elegante, mas frustrada por não ter uma "família" dela. Pelo menos era assim que eu via. Talvez, ela simplesmente se contentasse em ser tia. Mas com essa experiência eu guardei que, se um dia eu não conseguisse ter filhos biológicos eu certamente adotaria. E cresci acreditando na adoção como um ato nobre.

domingo, 13 de junho de 2010

Pegar para Criar

Comecei refletir sobre adoção ainda na infância. Conhecia algumas daquelas tradicionais histórias de família, de avós, que criaram crianças que lhes foram deixadas na porta. Minha bisavó criou uma. Mas, naquela época, a visão era um pouco diferente, tinha um sentido de ajuda ao próximo apenas. Mas nesse sentido, fazia-se o que era possível por aquela criança, mas sem torná-la membro da família. Minha bisavó cuidou dela, mesmo tendo percebido que ela era uma criança especial, e que tinha seu raciocínio limitado. Ela passou a ser a "ajudante-geral" da casa auxiliando minha bisavó a cuidar dos netos. Minha mãe, que era um dos netos na época, e é quem me contou a história, dizia que as crianças abusavam da boa vontade da moça, embora minha bisavó tentasse impedir. Pediam bolo, cafuné, água, todas coisas que crianças pedem. Ela também contou que a moça, chamada Idalina, tinha um hábito de esconder ou roubar (depende do ponto de vista) comida. Diziam era "mania" dela. Mas gostavam dela e a tratavam bem, mas não como um membro da família. Idalina era a empregada, que era "quase" da família. Certamente ela foi criada com muito amor e carinho, tanto que, quando minha bisavó faleceu Idalina entrou em depressão. Dizia: "- Minha dona morreu". Parou de comer, não fazia mais nada e foi definhando até morrer também. Hoje muita coisa mudou, embora ainda possa existir situações similares com essa. Outro dia ainda ouvi essa expressão "pegou para criar" e estranhei. Ela foi dita por uma prima da minha mãe, provavelmente um dos netos na época também. Foi numa comemoração de bodas de ouro de outra prima delas. Estávamos todos à mesa, e eu estava me atualizando com relação às novas crianças da família, pessoas que eu não via há bastante tempo. Quando ela disse: "- Aquele menino ? O Luiz pegou para criar. A mulher dele não conseguia ter filhos e eles adotaram essa criança." É interessante perceber que os conceitos mudam ao longo dos anos, mas embora hoje o conceito de adoção seja diferente, sempre existirão pessoas com um conceito antigo para se expressar. Não sei como minha própria mãe se referiria a um filho adotivo, mesmo que fosse meu, diria provavelmente que eu "peguei para criar".