domingo, 13 de junho de 2010

Pegar para Criar

Comecei refletir sobre adoção ainda na infância. Conhecia algumas daquelas tradicionais histórias de família, de avós, que criaram crianças que lhes foram deixadas na porta. Minha bisavó criou uma. Mas, naquela época, a visão era um pouco diferente, tinha um sentido de ajuda ao próximo apenas. Mas nesse sentido, fazia-se o que era possível por aquela criança, mas sem torná-la membro da família. Minha bisavó cuidou dela, mesmo tendo percebido que ela era uma criança especial, e que tinha seu raciocínio limitado. Ela passou a ser a "ajudante-geral" da casa auxiliando minha bisavó a cuidar dos netos. Minha mãe, que era um dos netos na época, e é quem me contou a história, dizia que as crianças abusavam da boa vontade da moça, embora minha bisavó tentasse impedir. Pediam bolo, cafuné, água, todas coisas que crianças pedem. Ela também contou que a moça, chamada Idalina, tinha um hábito de esconder ou roubar (depende do ponto de vista) comida. Diziam era "mania" dela. Mas gostavam dela e a tratavam bem, mas não como um membro da família. Idalina era a empregada, que era "quase" da família. Certamente ela foi criada com muito amor e carinho, tanto que, quando minha bisavó faleceu Idalina entrou em depressão. Dizia: "- Minha dona morreu". Parou de comer, não fazia mais nada e foi definhando até morrer também. Hoje muita coisa mudou, embora ainda possa existir situações similares com essa. Outro dia ainda ouvi essa expressão "pegou para criar" e estranhei. Ela foi dita por uma prima da minha mãe, provavelmente um dos netos na época também. Foi numa comemoração de bodas de ouro de outra prima delas. Estávamos todos à mesa, e eu estava me atualizando com relação às novas crianças da família, pessoas que eu não via há bastante tempo. Quando ela disse: "- Aquele menino ? O Luiz pegou para criar. A mulher dele não conseguia ter filhos e eles adotaram essa criança." É interessante perceber que os conceitos mudam ao longo dos anos, mas embora hoje o conceito de adoção seja diferente, sempre existirão pessoas com um conceito antigo para se expressar. Não sei como minha própria mãe se referiria a um filho adotivo, mesmo que fosse meu, diria provavelmente que eu "peguei para criar".

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