sábado, 26 de junho de 2010

Adoção e Alzheimer

Quando comecei a pensar em adoção, entre outras reflexões que fiz, uma delas foi com relação à minha mãe, que é portadora de Alzheimer. Ela tem muitas dificuldades de memória, inclusive com relação à mim, que às vezes pensa não ser sua filha. Nesse contexto, pensei como essa criança seria vista por ela. Pensei mais além e como a minha ideia era adotar, independente de cor, qual seria sua reação ? Como ela trataria esta criança ? Atualmente não moramos juntas, porém, eu cuido dela e ela mora no mesmo prédio que eu. Isso significa que, caso eu adotasse uma criança, essa criança inevitavelmente conviveria bastante tempo com minha mãe. Como minha mãe veria essa criança ? Imagine se ela fosse de cor ? Ela pensaria que é filha da empregada ? Todos esses pensamentos me passaram pela cabeça, por mais absurdos que possam parecer nos dias de hoje. Realmente quem não conhece um pouco sobre a doença, talvez não entenda o que eu estou querendo dizer. Minha mãe tem 81 anos e embora nunca tenha demonstrado um preconceito muito profundo, sei que ela, como a maior parte das pessoas da sua geração, o tem. Ela era do tipo que dizia "fulano tem o pé na cozinha", ou até mesmo dizia que não era bom se relacionar com pessoas de raça diferente porque eles poderiam gerar crianças não muito saudáveis. Esse pensamento pode ser bastante antigo e ultrapassado e certamente hoje ela não fala mais estas coisas. Porém, para quem conhece essa doença, sabe que a memória da pessoa vai regredindo e que as lembranças mais antigas é que vão se tornando mais presentes. Isso poderia trazer aquele velho preconceito de volta e sem querer ela questionar quem seria a mãe da criança, nunca assimilando aquela criança como sua neta. Hoje ela tem duas netas, e em geral ela lembra das duas, embora não com muita facilidade. Mas será que uma neta "diferente", embora com uma convivência maior, teria seu carinho ?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Casamento sem Filhos na Década de 60

Tive uma tia, minha madrinha, a qual eu era muito ligada, era minha segunda mãe. Cuidou de mim quando bebê e sempre esteve presente em todos os meus momentos. Até os mais rebeldes, quando briguei com minha mãe e fugi para sua casa. Ela havia sido casada, mas se desquitou (na época não havia divórcio) quando eu era bem pequena. Mas não pequena demais para não me lembrar de meu tio. Lembro dele, lembro da época em que eles "negociavam" a separação. Ele era meu padrinho e eu gostava muito dele, ele fazia muitas das nossas vontades (minhas e as de minha irmã mais nova). Nunca entendi porque eles não haviam tido filhos, eu queria primos e pedia por isso. Criança é assim mesmo, quer sempre mais do que tem. Minha mãe dizia que meu tio era quem não podia ter filhos. Teve caxumba na infância. Engraçado como para ela, naquela época era importante frisar que o problema não era de minha tia. Minha tia dizia que ia adotar uma criança, me lembro disso. Mas ela se separou e na época mulher só criava filho sozinha se tivesse sido abandonada pelo companheiro. Eu era criança e não entendia essas limitações culturais, queria um priminho. Achava minha tia triste por não ter filhos. Acredito que a lei da adoção, na época, também não favorecesse situações deste tipo. E cresci com essa imagem da minha tia, mulher bem sucedida profissionalmente, elegante, mas frustrada por não ter uma "família" dela. Pelo menos era assim que eu via. Talvez, ela simplesmente se contentasse em ser tia. Mas com essa experiência eu guardei que, se um dia eu não conseguisse ter filhos biológicos eu certamente adotaria. E cresci acreditando na adoção como um ato nobre.

domingo, 13 de junho de 2010

Pegar para Criar

Comecei refletir sobre adoção ainda na infância. Conhecia algumas daquelas tradicionais histórias de família, de avós, que criaram crianças que lhes foram deixadas na porta. Minha bisavó criou uma. Mas, naquela época, a visão era um pouco diferente, tinha um sentido de ajuda ao próximo apenas. Mas nesse sentido, fazia-se o que era possível por aquela criança, mas sem torná-la membro da família. Minha bisavó cuidou dela, mesmo tendo percebido que ela era uma criança especial, e que tinha seu raciocínio limitado. Ela passou a ser a "ajudante-geral" da casa auxiliando minha bisavó a cuidar dos netos. Minha mãe, que era um dos netos na época, e é quem me contou a história, dizia que as crianças abusavam da boa vontade da moça, embora minha bisavó tentasse impedir. Pediam bolo, cafuné, água, todas coisas que crianças pedem. Ela também contou que a moça, chamada Idalina, tinha um hábito de esconder ou roubar (depende do ponto de vista) comida. Diziam era "mania" dela. Mas gostavam dela e a tratavam bem, mas não como um membro da família. Idalina era a empregada, que era "quase" da família. Certamente ela foi criada com muito amor e carinho, tanto que, quando minha bisavó faleceu Idalina entrou em depressão. Dizia: "- Minha dona morreu". Parou de comer, não fazia mais nada e foi definhando até morrer também. Hoje muita coisa mudou, embora ainda possa existir situações similares com essa. Outro dia ainda ouvi essa expressão "pegou para criar" e estranhei. Ela foi dita por uma prima da minha mãe, provavelmente um dos netos na época também. Foi numa comemoração de bodas de ouro de outra prima delas. Estávamos todos à mesa, e eu estava me atualizando com relação às novas crianças da família, pessoas que eu não via há bastante tempo. Quando ela disse: "- Aquele menino ? O Luiz pegou para criar. A mulher dele não conseguia ter filhos e eles adotaram essa criança." É interessante perceber que os conceitos mudam ao longo dos anos, mas embora hoje o conceito de adoção seja diferente, sempre existirão pessoas com um conceito antigo para se expressar. Não sei como minha própria mãe se referiria a um filho adotivo, mesmo que fosse meu, diria provavelmente que eu "peguei para criar".