Parei de escrever, parece que perdi o fio da meada. Na verdade estava em um luto, após meu aborto psicológico. Afinal se quando estamos na lista de espera pela nossa criança nos dizemos “grávidos”, então quando não conseguimos entrar na lista sofremos um “aborto”. Tenho curiosidade de saber das pessoas que sofreram a mesma angústia que eu, aquelas que tiveram suas habilitações rejeitadas. Quem são essas pessoas ?
Bem, eu estou tentando superar minha perda, não tem sido fácil. Me deu aquele “pânico” de não conseguir essa criança tão desejada. E como já não sou mais nenhuma mocinha, apesar de ainda ser jovem, tomei uma atitude meio impensada e com certeza meio na base do desespero. Muitas pessoas talvez não entendam isso, critiquem, mas a verdade é que só quem realmente está passando por isso é que é capaz de entender. Quando nós mulheres sem filhos chegamos aos 40 anos(às vezes até antes) nos deparamos com a realidade, teremos filhos ? Aí corremos para o médico, feito loucas desesperadas, como se ele tivesse a resposta ou a solução para isso. Eles até tem algumas opções, mas a verdade é que o problema é nosso. Aceitamos as opções oferecidas ? Nesse desespero temos que tomar decisões. Decisões extremamente importantes e que vão definir nosso futuro.
Cada pessoa tem sua crença, seu modo de pensar, e isso difere de um para outro. No meu modo de pensar, se não tenho mais óvulos para gerar uma criança, ela não será “biologicamente” minha, não terá meu DNA digamos. Então, para mim, não há necessidade de uma gravidez “biológica”, a “psicológica” (a da adoção) para mim faz mais sentido nesse caso. Mas, e como tudo tem um mas, como disse acima, deu “pintou” o desespero. Desespero de não conseguir a criança adotiva e nem a biológica. Resolvi fazer um tratamento (uma das opções existentes) para gerar óvulos para congelar e utilizar no futuro. Nesse caso eles teriam meu DNA. Meu parceiro não sabe o que quer da vida, então não tenho como dar continuidade ao tratamento (chegar a tentar a gravidez) e o que penso sobre óvulos doados vale também para o sêmen. Porque fazer isto então ? Pois é, como eu dizia, puro desespero. Desespero de não conseguir ser habilitada para ser mãe, nem no contexto biológico, nem no psicológico.
Encarei o tratamento, embora no passado já tenha passado por isso (quando era casada e tinha um parceiro) e jurado que não mais tentaria. É verdade que meu parceiro atual tinha acenado com a hipótese futura de tentar ter um filho biológico comigo. Então encarei e agora estou sofrendo as conseqüências. Essas ninguém fala muito, sei que todas que passaram por isso sabem o que estou falando. É uma situação ingrata e extremamente desfavorável que pode “detonar” com casamentos, além de “detonar” fisicamente também. Fazer isto com a minha idade (tenho 42 anos) significa tomar o dobro da quantidade de hormônio que tomei quando era mais nova (tinha 38 anos na época). Os efeitos colaterais são fáceis de entender, é uma TPM violenta que dura uns 15 dias (pode durar mais se for uma tentativa completa). Há medo a cada ultrasom, será que terei óvulos ? Um só é suficiente ? Tudo isso por apenas um óvulo ? Vale a pena ? (essa questão eu enfrento todo dia).
Encarei os desafios que a vida me propôs, mas aquela criança moreninha, de olhos escuros me fitando, não desaparecem na minha mente. Aquela que seria minha filha. Choro toda vez que vejo um filme onde as pessoas adotam uma criança. Para mim não existe amor maior que o de mãe para filho (biológico ou não).
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