Em 01/04/2001, Victoria, Canadá, texto na íntegra.
Comprei este caderninho porque é claro que achei lindo. Mas para escrever alguma coisa nele também. Para que ele fosse a minha consciência e registrasse os meus pensamentos também. Hoje foi um dia bem cinzento, isso em todos os sentidos. Choveu e fez frio o dia todo. Fiz um passeio para Victoria e Butchart Gardens. Imagina um jardim florido num dia frio e chuvoso ? Pois é. Hoje senti saudades de casa, mas nem tanto da minha casa, e sim de um lar, de família. Isso é sempre do que sinto falta. Fico bem sozinha, não duvidava disso, mas gostaria de ter uma família. Senti falta do abraço combustível do meu ex-namorado. Sempre uma companhia boa. Queríamos as mesmas coisas, ou quase, quando viajávamos. Nunca brigamos em viagem. No final delas eu sempre me deprimia ao voltar para casa. Fico triste e até mesmo choro. Parece que voltar não faz sentido. Também queria ficar por aqui. Não ir mais embora. O que eu tenho que me prende ? Minha mãe ? Até quando ? Achar outro caminho seria a solução ? Desistir da adoção ? Qual rumo tomar ? Nos sentimos mais livres e fortes quando viajamos, isso é verdade. Mas será que raciocinamos direito ? Minha busca por autoconhecimento certamente está funcionando. Me descobri uma pessoa simples, com gostos simples, nada cheio de extravagância. Ontem, cansada de andar por Vancouver e tentando encontrar internet grátis, fui parar na biblioteca pública. Achei uma seção com livros em português. Como havia cadeiras lá, peguei o livro “Malu de Bicicleta” do Marcelo Rubens Paiva, e me pus a ler. Por lá fiquei por uma hora. Essa sou eu, isso me define. Adorei esse momento simples. Como minha mãe sempre disse que quando leio fico totalmente “fora do ar”. Sim, os livros tem esse poder em mim. Volto a me perguntar, como fazia na infância, porque nasci no Brasil ? Não faço questão de praia, não agüento muito tempo no sol. Adoro neve, adoro inglês, francês, leio muito (com qualidade) para a média dos brasileiros. Me pergunto porque não fui embora enquanto podia ? Porque me casei ? Porque me deixei ser a “princesinha”. Nunca foi muito meu tipo isso. Sempre tive uma veia aventureira. De família, claro, minha mãe nunca foi de seguir convenções. Porque eu resolvi segui-las ? Nada deu certo nesse sentido, não seria hora de mudar de estratégia ?
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